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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Dia da gratidão


     Hoje é o Dia da Gratidão, dia de Reis. O que você tem a agradecer? Pare um pouco e pense em tudo o que você recebeu da vida. Primeiro, o privilégio de estar vivo. De poder ler e pensar. E o que mais?
     Podemos começar agradecendo por tudo o que somos e pelo que existe no mundo. Tem muita barra na vida, muita injustiça e feiura, mas é uma viagem estarmos atentos para o que é bonito, vivo, vibrante. Eu fiz a minha listinha, e quero agradecer especialmente aos meus amigos, gente querida que me acompanha e me apóia há muitos anos. 
     Para refletir um pouco mais sobre a gratidão, posto aqui um poema de Fátima Irene Pinto que é de uma simplicidade e de beleza ímpares que vale muito a pena. Depois da leitura pense: O que você destaca em sua lista de gratidão?

Oração do Matuto

Ói  Deus,
Nóis  tá  sempre  pedindo  as  coisas  pro  Sinhô
Nóis  pede  dinheiro
Nóis  pede  trabaio
Nóis  pede  pra  chovê
E  se  chove  demais
Nóis  pede  pra  pará
Mode  a  coiêta  num  afetá

Nóis  pede  amô
Nóis  pede  pra  casá
Pede  casa  pra  morá
Nóis pede  saúde
Nóis pede  proteção
Nós  pede  paiz
Nóis  pede  pra  dislindá  os  nó
Quando  as   coisa  cumprica
Mode  a  vida  corrê  mió

Quano  a  coisa  aperta  nóis  reza
Pedindo  tudo  que  farta
É  uma  pedição  sem  fim
E  quano  as  coisa  dá  certo,
Nóis  vai  na  igreja  mais  perto
E  no  pé  de argum  santo
Que  seja  de  devoção
Nóis  deixa  sempre  uns  merréis
E  lá  no  cofre  da  frente
Nóis  coloca  mais  uns  tostão

Mais  hoje  Meu  Sinhô
Bateu  uma  coisa  isquisita
E  eu  me  pus  a  matutá
Nóis  pede,  pede  e  pede
Mais  nóis  nunca  pregunta 
Comé  que  o  Sinhô  tá
Se  tá  triste  ou  tá  contente
Se  percisa  darguma  coisa
Que  a  gente  possa  ajudá
E  por  esse  esquecimento
O  Sinhô  tem  que  nos  adiscurpá

Ói  Deus,  nóis  sempre  pensa
Que  o  Sinhô  num  percisa  de  nada
Mas  tarvez num  seja  bem  assim
Tarvez  o  Sinhô  percisa  de  mim
Sim,  o  Senhô  percisa,  sim
Percisa  da  minha  bondade
Percisa  da  minha  alegria
Percisa  da  minha  caridade
No  trato  co's  meus  irmão

Nóis  semo  seu  espêio
Nóis  semo  Sua  Criação
Nóis  num  pode  fazê  feio
Nem  ficá  fazendo  rodeio
Nem  desapontando  o  Sinhô
Nem  amargá  o  seu  sonho
Que  foi  um  sonho  de  amô
Quano  essa  terra  todinha  criô

Ói  Deus,  eu  prometo
Vô rezá  de  ôtro  jeito
Vô  pará  com  a  pedição
E   trocá  milagre  por  tostão
Tarvez  eu  inté  peça  uma  graça
Mas  antes  vô  vê  direitinho
O  que  é  que  andei  fazendo  de  bão
E  se  nada  de  bão  eu  encontrá
Muito  vô  me  envergonhá
E  ainda vô  pedi  perdão.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DOCE INSÔNIA


Na maior cumplicidade e sintonia
viajaram pela poesia...
Gargalharam pela madrugada
Riram de forma abusada
de todos os conceitos e normas...
De toda forma de lucidez
E quando se viram
já sem a lua e as estrelas
pediram deslavadamente ao amanhecer
que apagasse a luz outra vez...


Cenário


Olho essas paredes
separo os ambiente
que decorei
sem olhar
que eu criei
sem querer decorar
que arrumei
para uma felicidade
que nunca existiu.

Hoje sei a diferença
entre vitrine e cenário
É vida
É espaço cênico
de cada um
no seu mundo.

Pensei nas cores
não quis saber dos espaços
vazios
só pensei nos móveis
imóveis
preenchendo
o que nada houve
nunca foi nada
inexistiram pessoas
o cenário virou vitrine
capa de revista
não revista 
por muito tempo.

Combinação de cores
equipamentos de som!
e a combinação de sentimentos
equipamento de ideias?
Só ficou o superficial
no final
que não basta
não preenche a vontade
sem vontade das pessoas
de vir e ir
sem julgamentos
financiamentos
lamentos...
vitrines existem
prontas a se tornarem
cenários
desde que existam pessoas
aptas a atuar
sem medo
do ridículo
do público
das vaias
dos aplausos
de si mesmos.

A vida é teatro
palco!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cheiro Bom


O cheiro era de infância
De estrada de terra
De estrada de ferro
De Maria Fumaça
O cheiro era de café torrado e moído
De café coado
De bolo de cenoura e broa de fubá assados
O cheiro era de doce de leite 
cozinhando no tacho
De paçoca de carne feita no pilão 
O cheiro era de esterco de gado
De mato molhado
De terra afofada
O cheiro era de chuva
e a danadinha ainda nem havia chegado
O cheiro era de vovô carinhoso 
e feliz brincando comigo
De pipa voando no azul do céu
e gargalhadas espalhadas pelo vento
De som de nossas vozes cantando 
as músicas preferidas
O cheiro era de vovô dormindo na rede depois de um dia festivo

O cheiro era de doces lembranças 
e eternas saudades...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Perguntas na mangueira (e na Árvore de Natal)

     Outro dia, tendo recebido um exemplar do Jornal Alecrim e folheando suas páginas sem compromisso antes de lê-lo, uma coluna me chamou a atenção pelo título: Perguntas na mangueira (e na Árvore de Natal). Sem me importar com quem havia escrito, comecei a leitura e, ao ler a primeira frase me lembrei imediatamente da Leila, o que me fez voltar ao título para ver quem assinava. Sorri ao constatar seu nome. Me entreguei à leitura com prazer e fui reportada aos meus tempos de criança, tempos que me recordo com saudades e amor, tempos que me trazem à lembrança a figura do avô mais que amado que costumo dizer, me ensinou com seus diálogos, vivências e descobertas subjetivas que tanto me ajudaram a ler o melhor livro da vida. Por isso, resolvi postar o texto da Leila aqui e dizer que aceitei sua sugestão e que minha Árvore encontra-se repleta das mais variadas perguntas, como um exercício a ser praticado ao longo de nossa caminhada.
          
               
     Meu irmão costuma dizer que as palavras foram o único brinquedo que ele guardou de sua infância. Filhos de uma professora de português, crescemos cercados pelos livros, mas, além do gosto pela leitura, aprendemos cedo o quanto era prazeroso (e importante) conversar. As conversas quase sempre aconteciam perto do fogão de lenha, que usávamos como uma espécie de quadro-negro: minha mãe deixava uma caixa de giz à vista e ali, na superfície vermelha do fogão, rabiscávamos uma infinidade de recados uns para os outros. Afinal, éramos seis filhos e sempre havia o que dizer.

     Mas o que me fascinava mesmo eram as longas conversas que minha mãe tinha conosco. Ao nos ensinar a ver as palavras como aliadas, ela fez com que aprendêssemos a abrir o coração sem reservas, a expressar os sentimentos sem medo. Falávamos sobre alegrias e incertezas. Compartilhávamos os nossos sonhos(que eram muitos) e nossas tristezas (que também eram várias). E sempre saíamos melhores, e mais adultos, daquelas conversas.

     Mas talvez a lição, ou o exemplo, mais bonito deixado por ela tenha sido o costume de dependurar perguntas nos galhos da mangueira. Quando estava angustiada - quando os problemas pareciam estar além de sua capacidade de resolvê-los - minha mãe "fugia" para o quintal e me levava com ela. Nós duas no sentávamos nas raízes da mangueira (eu ainda criança) e ela ia falando baixinho sobre suas incertezas, suas dúvidas, sua perplexidade diante da aparente falta de saídas num cotidiano que não tinha nada de simples. Depois que ela desabafava, eu perguntava também - e eram muitas interrogações se esforçando para caber naquele vocabulário de criança. O fato é que ali ficávamos, as duas, e, a certa altura, minha mãe me puxava pela mão, apontava para aquela árvore frondosa e dizia: "Pronto. Nós já dependuramos as perguntas todas nos galhos da mangueira. Agora você vai ver como a gente vai se sentir melhor..." E a gente realmente se sentia. Ali naquela sombra, no mesmo chão onde ensinou meus irmãos a ler desenhando as letras com pedrinhas, minha mãe me mostrou como é importante perguntar. Aprendi que os pontos de interrogação nos fazem ir além da superfície e isso, no final das contas, é viver.

     Nesta época do ano, vendo as árvores de Natal decoradas com mil luzes, sempre me lembro da mangueira de Araxá e penso como seria bom se, junto com as bolas coloridas e os enfeites, a gente pudesse dependurar nossas interrogações. Na pressa em que vivemos, vamos deixando, aos poucos, de refletir. Faltam perguntas no mundo de hoje. pouco questionamos nosso estilo de vida e nossos valores. E, ao aposentar os pontos de interrogação, transformamos a vida em algo menor do que ela poderia ser.

     Fica, portanto, a sugestão: que na árvore de Natal deste ano as perguntas dividam espaço com a decoração. Perguntando nós avaliamos melhor nossos comportamentos e nossos estados de espírito, passamos a ter mais chance de conviver melhor com quem nos cerca. O excesso de certezas nos entorpece e nos leva a viver no piloto automático. As indagações, ao contrário, trazem à tona paradoxos que não podemos ignorar, contradições que precisamos entender para sermos mais reais e mais verdadeiros - ou seja, elas nos deixam melhores e mais conscientes da infinitas possibilidades do viver. Esse talvez seja o melhor presente de Natal que podemos dar - para os que convivem conosco e para nós mesmos.

Leila Ferreira é jornalista e autora dos livros A arte de ser leve e Mulheres Por que será que elas...?