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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Codisburgo e a personagem fugida de um livro

          Carnaval, muitos querem uma farra boa para extravasar a energia, som nas alturas, noites inteiras de folia e bebedeira, há quem goste. Outros preferem a calmaria, longe da agitação fazem de sua folia momentos de paz e tranquilidade  para recompor a energia. Comigo foi assim, calmaria, traquilidade e paisagens de se tirar o fôlego, literalmente.

         

          Estive em Codisburgo, terra de meu ídolo Guimarães Rosa, para um passeio. Já tinha visitado a Gruta de Maquiné quando criança, porém, não entrara na cidade. Dessa vez, iria visitar a Casa onde Guimarães nasceu e passou a infância, mas infelizmente, devido ao feriado prolongado do carnaval, adivinhem: isso mesmo, tudo fechado. Ainda assim, fiz um passeio pela cidade e me senti privilegiada em pisar no lugar onde nasceu um gênio que revolucionou e deu sua enorme contribuição para nossa Literatura. Como costumo considerar, Minas realmente é o berço da Literatura.Ah, Minas, Minas querida!

          Claro que a viagem não foi perdida, aproveitei também para voltar à Gruta de Maquiné e revisitar suas belezas, ao entrar novamente na Gruta após quase trinta anos, uma emoção tomou conta de mim e pude perceber que me lembrava perfeitamente de quase tudo.
          A gruta foi descoberta em 1825 pelo português Joaquim Maria do Maquiné e pesquisada, cientificamente, em 1834, pelo dinamarquês Peter Wilhelm Lund Lund e considerada uma das mais belas do mundo. Lund assim descreveu a gruta; “A mais rica imaginação poética não saberia engendrar uma tão esplêndida morada para os seres maravilhosos; diante desta notável gruta; ela seria forçada a confessar sua impotência... Quanto a mim, confesso que, seja quanto à natureza, seja quanto à arte, jamais contemplei algo tão maravilhoso.” A Gruta de Maquiné tem uma extensão de 650 metros, 18 metros de profundidade, uma temperatura que varia entre 18º e 22ºC e uma área de 12.000m².

 
           O ponto alto de revisitar Maquiné, foi conhecer uma figura que atende pelo nome de Luís. “Seu” Luís para mim, é uma personagem saída de algum livro, ele é bem humorado, alegre, brincalhão e gosta de pregar peças na gente. Trabalha no estacionamento da Gruta e faz as vezes de recepcionista, e que recepcionista! No estacionamento, enquanto esperava para subir para a entrada da Gruta, acendi um cigarro e ele me pergunta:
          - Você fuma?
          Eu já achando que ele iria me pedir um cigarro ou dizer que fazia mal, etc, etc, eu devolvi a pergunta:
“sim, o senhor aceita um?” ele me responde com o ar mais sério do mundo:
          - Não, obrigado, eu parei... -  e já tirando o maço do bolso da camisa - tem dez minutos que eu não fumo! - caio na gargalhada e pergunto; "como o senhor se chama?"
          - Me chamo Luís, mas pode me chamar de Luís Preto, que é como todos me conhecem. -  A partir daí, “seu” Luís já tinha virado amigo de infância! Como continuava esperando para subir, “seu” Luís me diz bem baixinho:
          - Não sei se já liberaram a gruta -  e eu pensei: “era só o que me faltava, além de tudo, essa gruta estar fechada justo hoje”, fui logo perguntando: “está fechada hoje?” e ele:
          - Não, eles vão abrir, mas não sei se já liberaram porque encontraram uma cabeça dentro de uma sacola lá dentro hoje bem cedinho -  “que horror!”, exclamo. E ele com a cara mais lavada do mundo:
          - Mas não se preocupe, é uma cabeça, mas é uma cabeça bem pequena de repolho. Caio na gargalhada e peço para ele pregar a peça nos outros e fico só olhando.
           “Seu” Luís é realmente uma personagem fugida de algum livro! Deseja a todos uma boa visita, sempre com uma alegria de estar ali, que contagia, ajuda os motoristas a acharem uma vaga melhor na sombra, orienta que há mais vagas na parte superior do estacionamento, diz que ali “está bem guardado”. Depois do passeio, volto a encontrar com “Seu” Luís que vem logo com outra pegadinha:
          - Você sabe porque a loira colocou leite dentro do pastel?
          “Não “Seu” Luís” – respondo.
          - É para beber leite “pausterizado”!
           Respondam: é ou não é uma personagem?!!! E “Seu” Luis ainda brinca:
          - Tenho 92 anos, vou ficar mal humorado por quê? Dessa vida a gente só leva alegria!
          - “Seu” Luís o senhor tem 92 anos?!!! Vai precisar me ensinar o seu segredo!!! E ele solta:
          - Não tá acreditando? Então pergunta pro finado meu avô! -  Agora tenho absoluta certeza; “seu” Luís fugiu de algum livro!!!
          Na hora da despedida, ele fica solene, tira o bonezinho e diz;
          - Vão com Deus, eu peço para todos que passam por aqui, que não corram na estrada, vocês não precisam de pressa para chegar, precisam chegar bem e com segurança. Essas estradas são muito perigosas, para quê facilitar? Nossa Senhora Aparecida acompanhe vocês.
          Abraço “seu” Luís, peço uma foto e ele me abraça para a pose todo satisfeito. Nos despedimos e digo a ele o enorme prazer que tive em conhecê-lo. Olho para trás e ainda vejo “seu” Luís acenando com o bonezinho na mão.
          Quando voltar a Codisburgo novamente para visitar a Casa de Guimarães, a Gruta será passagem obrigatória para levar o meu abraço ao “seu” Luís, personagem que fugiu de algum livro!

          Agradeço à Luzynha, sem a qual não seria possível o registro da foto com "seu" Luís depois do tombo que levei dentro da gruta e minha máquina foi para o espaço!
          Valeu Luzynha!!!

         










terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Viva Iemanjá!

 
 
“Iemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta”.

Jorge Amado

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector


Vivem me chamando de boba, então resolvi postar hoje o texto da Minha Estrela Clarice que fala por mim:
-Sou boba mesmo, e daí?!

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector, 12 de setembro de 1970.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

SAUDADE



Saudade, a palavra que só existe em português,
 mas cujo sentimento é universal.
Nostalgia do que já passou. Do que foi.
Sentir saudade é bom,
mas que a saudade gere esperanças de novos começos,
para que se viva mais plenamente o presente.

Dia da Saudade

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

De Corpo Inteiro - Entrevistas

    

     Quem me conhece bem, sabe da minha paixão pela literatura, música, cinema e coisas afins.Vivo espalhando o amor pela Minha Deusa – leia-se aqui Maria Bethânia Viana Telles Velloso – que quando nasci já brilhava nos palcos dessa vida.

     Outra paixão, Minha Estrela: Clarice Lispector, descoberta ainda menina e que não me canso de admirar, eu e muitos outros. Interesso-me por tudo o que se refere à Clarice, tudo mesmo e hoje ao abrir o jornal, em meio a tantas notícias nem sempre agradáveis de ler, para minha surpresa, me deparo com uma página inteira do caderno de Cultura do Estado de Minas trazendo Minha Estrela como destaque. Trata-se De Corpo Inteiro- Entrevistas, que, segundo a sobrinha neta de Clarice, Nicole Algranti, produtora, diretora e roteirista, “o filme teria sido um documentário, se todos estivessem vivos, mas passou a ser uma ficção com pitadas de documentário.”

     Não importa, o fato é que Nicole Algranti escolheu algumas das entrevistas marcantes feitas por Clarice e deu vida a um projeto que, talvez, tenha rondado seu subconsciente por muito tempo. Algumas atrizes de peso encarnam Clarice em suas entrevistas com personalidades do meio cultural brasileiro para a revista Manchete entre 1968 e 1969 e atores para dão vida aos entrevistados, porém, os entrevistados que estão vivos foram convidados a responder as mesmas questões de Clarice. Fico imaginando a riqueza de uma época!

     Como se não bastasse reviver um período que não vivi, o tema da trilha sonora foi composto por Frejat, mas há a música inspirada por texto da própria Clarice retirado de Água Viva que Cazuza musicou e que é interpretada por Adriana Calcanhoto. O DVD traz ainda o Making Of e curta metragem O ovo, narrado por ninguém menos que Minha Deusa: Maria Bethânia.

     Curta um pedacinho do Making Of:
http://www.youtube.com/watch?v=PlUz0OPeSlU