Ler é colher: e, mais ainda, é reorganizar cognitivamente o mundo. Meditemos sobre o
significado deste inequívoco fato: LER É VERBO. E verbo designa ação. Pensar, por exemplo.
Ultimamente, tenho ouvido muito sobre o "perfume" que uso.
Onde vou, sempre tem alguém que me pergunta o nome, outras pessoas não perguntam: afirmam.
Outro dia, uma amiga muito querida disse que meu cheiro lhe era familiar, depois disse que lembrava o cheirinho de sua avó. Pensei logo que havia mudado de patamar, não fui nem mãe e já fui promovida a avó!
Engraçado como "nossos cheiros" despertam sensações boas e outras, nem tanto.
Nunca pude usar perfumes porque sou alérgica a eles, muito alérgica - apesar de adorá-los, mantenho uma certa distância desconfiada por aquilo que podem me causar. Uso uma colônia, das mais suaves e discretas assim como gosto e procuro ser, mas nunca gostei de dizer o que uso. Desde muito cedo me causava um desconforto, que eu mesma achava esquisito, alguém me sondar o que eu estava usando que cheirava dessa ou daquela maneira. É uma sensação de invasão a que tenho, hoje compreendo bem isso, e ninguém, pelo menos que eu saiba, gosta de sentir invadido.
Os últimos comentários, me trouxeram à lembrança um texto de minha Estrela Clarice Lispector, que fala exatamente disso e, talvez, minha solução seja tentar achar outra coisa que combine comigo para que eu possa continuar a ter o direito ao meu segredo.
Já falei do perfume do jasmim? já falei do cheiro do mar. A terra é perfumada. E eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: Simplesmente não eram elas. Não digo o nome também por segredo. É bom perfumar-se em segredo.
LISPECTOR, Clarice. In: Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. p.90.
Hoje é o Dia da Gratidão, dia de Reis. O que você tem a agradecer? Pare um pouco e pense em tudo o que você recebeu da vida. Primeiro, o privilégio de estar vivo. De poder ler e pensar. E o que mais?
Podemos começar agradecendo por tudo o que somos e pelo que existe no mundo. Tem muita barra na vida, muita injustiça e feiura, mas é uma viagem estarmos atentos para o que é bonito, vivo, vibrante. Eu fiz a minha listinha, e quero agradecer especialmente aos meus amigos, gente querida que me acompanha e me apóia há muitos anos.
Para refletir um pouco mais sobre a gratidão, posto aqui um poema de Fátima Irene Pinto que é de uma simplicidade e de beleza ímpares que vale muito a pena. Depois da leitura pense: O que você destaca em sua lista de gratidão?