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quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Há uma quase revelação


na boca das pessoas


Há um susurro interior,


muito interior


tão profundamente interior


que desponta nos olhos


Há um qualquer tênue fio de medo


entre o calar e o dizer...


Pranto para a rebentação


tanto mais quanto grosso o embotamento


Há um quase atrevimento nas atitudes e uma


firme convicção gerando


o resguardo das ideias




sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Lua De Uma Tarde...



A lua de uma tarde


é a mais completa sensação de abandono!



A esmo nos azuis do dia, como se ela



tivesse entrado atrevida num quarto escuro



e repentinamente lhe acendessem a luz!



A lua de uma tarde!



Não me canso de olhá-la



Mesmo que ela me faça uma careta rabugenta e sem graça



eu a protejo em meus olhos e a levo comigo



até o semblante das pessoas



E elas se surpreendem!



Porque ao invés de virem



a lua no céu e a noite,



ela está em meus olhos



e é dia!


A lua de uma tarde...








sexta-feira, 17 de julho de 2009


A noite tem milhares de olhos e o dia tem só um,
mas a luz do mundo todo morre quando o Sol se põe.
A mente tem milhares de olhos e o coração tem só um,
mas a luz da vida toda morre quando acaba o amor.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O Teu Corpo

O teu corpo é meio, ou quase nada, não importa

Teu meio é a alma!


Mas o corpo é o braço


e teu braço é a mão


E tua mão é a boca


que são os olhos de teu corpo


Teus olhos são o corpo de tua boca


Tua boca te incorpora


seu corpo olha


Teus olhos comem o mundo


E você se entrega e integra ao mundo


E sentirá o mundo sobre você


Mas perceberá que ele pesa apenas


o peso de uma folha


apoiada em teu colo...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Manto de Poesia


Eu preciso de poesia para viver, seja em forma de versos, vinho, loucura, dádiva, carícias verbais, música, amizade, oração ou saudade. Como os mais inquietantes versos, eu resfolego, respiro ao fim de cada frase, tropeço em palavras tortas e duras como pedra. Mas posso chegar às alturas com poemas que acariciam a pele com o toque de penas macias.


Eu apenas preciso de poesia como do ar que respiro. Sem inspiração, eu não consigo ser mulher. Sem poesia, eu só sou um soldado a digitar vogais, consoantes e pontos perdidos no espaço branco da tela de um computador. Com poesia , porém, eu consigo ocupar o espaço feminino, escrever sobre saias rodadas e flores nos cabelos, sobre rendas e novelos de lã. Pela poesia, posso até costurar e bordar. Posso tecer como as aranhas. Ou ser uma tecelã ancestral diante de uma roca de fiar.


Pela poesia, eu sobrevivo aos séculos, resgato o poder dos antepassados, miro-me no espelho do amanhã, recebo, com alegria, o livro com dedicatória de um amor incondicional recebido pelo correio e as fotos da meninice enviadas por e-mail pela amiga de infância, recebo ainda, o ramo de lavanda que a amiga da montanha colheu para receber-me no domingo. Pela poesia, amo acima de todas as coisas, sem me importar com a idade ou com o tempo. Eu me desnudo inteira, sem medo ou vergonha.


Como poeta, posso escravizar com meus versos, posso pregar na cruz em meus braços abertos. Posso torturar ou seduzir com a doçura ou a aridez de palavras desnorteadas, imprudentes, ousadas, e pungentes. Posso dissecar com os olhos do coração.



Como mulher , posso pedir para revelar o mistério contido no âmago das matryoskas russas.Ou quem sabe participar do milagre do pão e então,celebrar a natureza que ainda sopra e redime as mulheres com o vento da bem-aventurança. Como mulher, coberta de poesia, posso me encantar com a dança cigana, ver o futuro nas cartas do tarôt ou perguntar porque o céu do meu bairro é sempre estrelado nas noites de Santa Clara. Eu posso, inclusive, pedir um sabonete com o perfume e poder de transformar mulheres endurecidas em fadas voadoras.



Como poeta, posso me despir de todo o pudor e dar a cada mulher uma missão especial, de não deixar que a natureza feminina seja aprisionada. Como mulher, posso transformar em poesia tudo o que toco. Mas, como poeta, também posso ser mãe de muitas crianças e viver para sempre num conto de fadas. Como mãe, posso continuar sonhando com filhos poetas, que podem fazer a diferença num mundo estéril. Como mãe, posso compactuar com todas as mulheres que sentem frio de amar. Como mãe, posso achar que um filho precisa de versos, de orações, de música, de máscaras para viver entre tantos discos arranhados, num país feito de sobrenomes.



Mas eu também posso ser ao mesmo tempo, poeta, mulher e mãe, ou quem sabe, espantar as assombrações que insistem em aparecer mesmo depois de passado o Dia das Bruxas. Como poeta, eu bem que poderia ser uma bruxa e colocar no meu caldeirão o sorriso de Dona Cida para não me esquecer que ela chegou aos 47 anos com simplicidade e elegância, e fazer uma alquimia para reavê-la.



Como mulher, posso colocar poesia no trabalho quando os textos saem leves, fluidos, quase etéreos. Como mãe, posso pôr cores mais pesadas, tons de vermelho e alaranjado, posso pensar que o paraíso é roxo, mas também ver nos olhos castanhos do “filho” Renan que a cada dia ensina coisas que ainda não sabia, principalmente, quando ele disse ter vindo ao mundo para ajudar-me ser uma boa mãe e não mais uma mulher perdida em metáforas.

Como poeta, posso me permitir a pedir que me cantem um blues da liberdade de todas as mulheres, inclusive, cobrir a cabeça com um lenço em sinal de respeito a uma voz que mergulha no mais suave de todas nós.


Como mãe, posso criar filhos felizes, sem a droga da competição e do poder que consome todos os sonhos. Como mãe posso aplicar os filhos na droga do amor, da compaixão e da solidariedade. Posso também ensiná-los a simplicidade da vida, com gosto de brigadeiro, pipoca e algodão doce. Posso também conversar por telefone com Delminha, que mesmo morando em Sampa, distante de BH, para pedir emprestada a felicidade escancarada da infância.


Como mulher, posso me entregar à paixão desmedida, dessas que tiram o ar e o chão. Pode ser tão singela ou fatal que só a poesia redimirá de mim mesma. Com poesia, afinal, não tenho medidas. Posso ser um único verso ou um poema tão longo que será declamado por toda a minha vida.